Renascimento das Pancs: Embrapa lança as primeiras cultivares de bertalha e caruru com selo de qualidade
Embrapa e Isla Sementes lançam a bertalha ‘BRS Tereverde’ e o caruru ‘BRS Ilekalu’, as primeiras cultivares de Pancs com identidade genética definida, visando revolucionar a agricultura familiar e urbana
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7/3/2026


O mercado de hortaliças brasileiro acaba de ganhar um reforço de peso que promete diversificar o prato do consumidor e a renda do produtor. Durante a 31ª Hortitec, a Embrapa Hortaliças (DF) oficializou o lançamento da bertalha ‘BRS Tereverde’ e do caruru ‘BRS Ilekalu’. Trata-se de um marco histórico: são as primeiras cultivares do grupo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (Pancs) a chegarem ao mercado com padrão genético conhecido e recomendações de cultivo validadas cientificamente.
Historicamente relegadas ao extrativismo ou a cultivos regionais sem padronização, as Pancs agora entram na era da identidade genética. A parceria público-privada com a Isla Sementes resolve o principal gargalo desse setor: a oferta de sementes de qualidade. O movimento não é apenas botânico, é estratégico. Em um cenário de mudanças climáticas, essas plantas oferecem uma resiliência natural — desenvolvida ao longo de séculos de evolução — que as torna menos dependentes de insumos químicos e mais resistentes a pragas e estresses hídricos.
BRS Tereverde: a resiliência que suporta 40°C
A bertalha ‘BRS Tereverde’ surge como a solução definitiva para o vazio de produção de folhosas durante os meses de verão intenso. Selecionada a partir de materiais de Teresópolis (RJ) e Santa Isabel (PA), a cultivar apresenta uma adaptação térmica impressionante, mantendo a produtividade mesmo em temperaturas que atingem os 40°C.
Para o produtor, os números são convincentes, com uma produtividade que atinge de 40 a 60 toneladas por hectare (4 a 6 kg/m²) e um ciclo de colheita estabelecido entre 60 e 90 dias após o plantio. Além disso, o manejo é altamente eficiente, permitindo de quatro a seis cortes sucessivos na mesma safra, enquanto a pós-colheita se diferencia pela durabilidade, mantendo a hortaliça apta ao consumo por até quatro dias em temperatura ambiente, o que representa um importante trunfo logístico para a comercialização direta.
BRS Ilekalu: o Caruru que desafia o teor proteico da carne
Se a bertalha brilha pela resistência térmica, o caruru ‘BRS Ilekalu’ (Amaranthus cruentus) impressiona pelo perfil nutricional. Com um teor de proteínas que alcança 33,8% nas folhas, a cultivar posiciona-se como um superalimento estratégico para a segurança alimentar.
Diferente dos carurus considerados "invasores" de lavouras, a ‘BRS Ilekalu’ foi selecionada pelo seu florescimento tardio (após 90 dias). Isso permite que o agricultor realize a colheita das folhas tenras entre a quinta e a sétima semana, eliminando a planta antes que ela produza sementes viáveis que poderiam infestar a área. É a domesticação de uma espécie rústica em prol da eficiência produtiva.
Oportunidades de monetização e hedge biológico
Ao analisarmos o impacto dessas cultivares no VBP (Valor Bruto da Produção), fica claro que as Pancs deixaram de ser um nicho de "quintal" para se tornarem um ativo de Hedge Biológico. Em sistemas de base agroecológica ou agricultura urbana, essas plantas funcionam como um seguro contra quebras de safra de hortaliças convencionais (como alface), que são extremamente sensíveis ao calor.
A integração das Pancs em circuitos de comercialização curta (feiras orgânicas e CSAs) e até no fornecimento para merenda escolar via PNAE abre frentes de monetização imediata para a agricultura familiar. A "novidade" no portfólio atrai um consumidor moderno, focado em compostos funcionais e metabólitos secundários associados à saúde, permitindo margens de lucro superiores às das commodities hortícolas tradicionais.
A biodiversidade como tecnologia
O lançamento dessas cultivares pela Embrapa e Isla Sementes é apenas o começo de uma série que incluirá almeirão-roxo e vinagreira nos próximos anos. O recado para o setor é direto: a biodiversidade brasileira, quando lapidada pela ciência, é uma das tecnologias mais potentes para garantir a sustentabilidade econômica do campo. Para o blog Agro em Foco, o insight é claro: quem dominar a cadeia produtiva das Pancs agora estará na vanguarda de um mercado que une nutrição, resiliência climática e alta rentabilidade.
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